Caos no Egito incita tensões no Oriente Médio; entenda

UOL

O ditador Hosni Mubarak, há 30 anos no poder, renunciou nesta sexta-feira em concessão aos 18 dias da maior crise política no Egito nas últimas décadas, com centenas de milhares de egípcios nas ruas pedindo por sua queda.

Egípcios protestam contra o governo de Hosni Mubarak na praça Tahrir, centro do Cairo, pelo 17º dia seguido

O fim da ditadura egípcia vem menos de um mês após a queda do governo autoritário da Tunísia ser derrubado pela Revolução do Jasmim, que levou a uma onda de protestos no mundo árabe.

A crise teve início quando um tunisiano ateou fogo a si mesmo, soando um alerta à população, principalmente os jovens, que se revoltaram em meio a altas taxas de desemprego, insatisfação com o regime ditatorial e a corrupção que corrói a região, além da ânsia por democracia e liberdade de expressão.

Nos dias que se seguiram países como Iêmen, Mauritânia, Jordânia e Argélia registraram outros casos de autoimolações, além de violentos protestos exigindo a queda de seus respectivos governantes e reformas imediatas.

Mas foi no Egito, país de importância geopolítica crucial para a região, que os protestos ganharam mais força.

Há mais de duas semanas manifestantes se concentram sobretudo na praça Tahrir, no centro do Cairo, exigindo a saída imediata de Mubarak.

O ditador resiste há 17 dias aos protestos que reúnem milhares de egípcios nas ruas de Cairo e de outras cidades. Os manifestantes exigem reformas democráticas e criticam o alto desemprego e pobreza durante o governo de mão de ferro de Mubarak.

Em uma tentativa de acalmar os manifestantes, Mubarak anunciou dias atrás que não concorrerá às eleições presidenciais de setembro próximo, mas alertou que ficaria no poder até lá para evitar o “caos” no país. Ele mandou ainda seu vice, Omar Suleiman, negociar com a oposição –oferta que foi rejeitada. Os manifestantes exigem que ele deixe o poder antes de iniciar qualquer diálogo.

As declarações causaram grande comoção na praça Tahrir, epicentro dos protestos, onde milhares celebraram uma possível vitória. Diante da comoção, funcionários do governo foram à imprensa negar os boatos e dizer que Mubarak permanece na Presidência.

Embora inicialmente tenham mantido uma postura mais distanciada, os EUA gradativamente aumentaram o tom ao comentar a crise egípcia.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, destacou logo nos primeiros dias que Washington apoiava “uma transição ordenada” de poder no país.

O presidente, Barack Obama, deixou claro que seu governo apoia um regime democrático no Egito, mas que as reformas necessárias não podem ter ingerência dos EUA e que o povo e o governo egípcios precisam chegar a soluções de forma autônoma.

Vista geral da multidão aglomerada na praça Tahrir, no Cairo; aliados indicam que Mubarak pode renunciar hoje

Dias depois reviu sua postura ao defender, após conversa por telefone com Mubarak, que a transição deveria começar imediatamente. Um pedido aberto de renúncia ao aliado americano, no entanto, não foi feito por nenhum membro do alto escalão de Washington.

Ontem (9), um dia antes do anúncio do pronunciamento de Mubarak, o vice-presidente americano, Joe Biden, aumentou o tom em conversas com seu colega egípcio, Omar Suleiman, exigindo o fim imediato do estado de emergência no país, em vigor há mais de 30 anos.

Também na quarta-feira o governo Obama foi criticado por republicanos e democratas no Congresso dos EUA pelo desempenho nas crises que atingem a região, com destaque à Tunísia e ao Egito. Os parlamentares julgaram as atitudes de Washington para apoiar as reformas democráticas nos dois países árabes como insuficientes e fracassadas.

“Tanto no Egito quanto no Líbano fracassamos em levar de forma efetiva a ajuda americana para apoiar as forças de paz, pró-democráticas e ajudar a construir instituições fortes, confiáveis, como um baluarte contra a instabilidade que agora se espalha para grande parte da região”, disse a representante republicana Ileana Ros-Lehtinen durante audiência no Comitê de Relações Estrangeiras do Congresso, que ela preside.

“Ao invés de sermos proativos, ficamos obcecados com a manutenção de uma estabilidade de curto prazo, personalista, que nunca foi realmente assim tão estável, como demonstram os acontecimentos das últimas semanas”, acrescentou.

REFLEXOS NA REGIÃO

A crise ressoa no Ocidente, já que os EUA têm no Egito seu principal aliado no Oriente Médio, além de despertar reações em Israel e no Irã.

A deterioração da situação política no país tende ainda a incitar a tensão no Oriente Médio.

O premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, rompeu o silêncio inicial e reiterou nesta semana que teme que a revolução no Egito tome um caráter fundamentalista e faça com que o país se torne um “novo Irã”. Ele disse ainda que observa a crise com a preocupação de que um potencial novo regime quebre o acordo de paz assinado entre os dois países em 1979.

O Egito reconhece o Estado de Israel e é visto como um aliado estratégico do país hebreu, apesar de no passado as duas nações já terem travado guerras.

Buscando capitalizar as revoltas como uma possível inclinação do Egito ao fundamentalismo islâmico, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, disse que o mundo está prestes a ver “uma grande mudança”.

“Estamos à beira de grandes mudanças e a missão que temos hoje é muito mais importante do que há cinco ou 20 anos, e o povo iraniano deve explicar o pensamento divino da revolução e apresentá-lo ao mundo”, advertiu.

Analistas temem ainda que os confrontos no Egito possam até contaminar a já extramamente conturbada região entre o norte do país e os territórios palestinos.

A passagem de Rafah, entre o Egito e a faixa de Gaza, chegou a ver tiroteios entre militantes egípcios beduínos e as forças de segurança e ao menos 12 morreram.

A península do Sinai, que já foi alvo de disputa entre israelenses e egípcios, recebeu reforços de soldados do Exército do Egito sob autorização do governo de Israel, que tomou a região durante a guerra com o país em 1967.

O movimento islâmico Hamas, que controla a faixa de Gaza desde 2007, enviou tropas à fronteira logo no início da crise, para evitar que palestinos cruzem à península.

Aliado importante dos EUA na região, o rei Abdullah, da Arábia Saudita, onde Ben Ali estaria exilado, minimizou as revoltas no Egito ao classificá-las como “bagunça”.

Durante conversa ao telefone com Mubarak, ele denunciou “intrusos” que estariam “bagunçando a segurança e a estabilidade do Egito (…) em nome da liberdade de expressão”.

A Arábia Saudita “apoia com todos os seus recursos os governo e o povo do Egito”, destacou Abdullah dias atrás.