Depois de dez dias, corpo de Chávez chega a quartel na Venezuela

Folha de S.Paulo

Um ato religioso com uma homilia na Academia Militar de Caracas abriu a cerimônia de transferência do corpo do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, morto no último dia 5 por complicações causadas por um câncer na região pélvica.

Depois de dez dias, corpo de Chávez chega a quartel na Venezuela

Os restos mortais do presidente saíram do local, onde ele foi velado por dez dias, para o chamado Quartel da Montanha, no bairro 23 de Enero, que também é conhecido como Museu da Revolução. A instalação é o mesmo local onde se reuniu Chávez e um grupo de insurgentes que tentou um golpe militar em 1992.

O caminho percorrido tem 20 km, onde se reuniram militantes de movimentos sociais e cidadãos que apoiam o mandatário. Alguns dos aliados carregavam faixas em referência ao presidente interino, Nicolás Maduro, que concorre ao comando do país.

Durante o percurso, a multidão gritava “Chávez vive, a luta segue”. Quando chegou ao quartel, em um cortejo que incluía veículos militares, o representante da Guarda do Povo fez uma homenagem ao mandatário.

Em um discurso cheio de referências a líderes latinos como Che Guevara e Simón Bolivar, o representante disse que uma salva de tiros seria disparada às 16h25 locais (17h55 de Brasília), hora da morte de Chávez, como forma de homenagear e manter viva a sua lembrança.

“Independência, ou revolução. Independência, ou pátria socialista. Independência ou nada. Até a vitória sempre, comandante socialista”, disse.

Telões foram instalados nas praças que rodeiam o quartel, para que a população pudesse acompanhar a cerimônia que ocorreu do lado de dentro.

Já no quartel, o corpo de Chávez recebeu mais uma bênção de um padre, que agradeceu a Deus pela oportunidade de o povo ter conhecido o presidente.

Depois, discursaram pessoas como o presidente da Bolívia, Evo Morales, e o presidente interino da Venezuela, Nicolás Maduro.

O primeiro, emocionado, falou da perda do “comandante”, a quem se referiu como irmão.

Maduro, falou da história de Chávez, desde sua infância até chegar à presidência. Falou de seus valores, disse que conhecia a pobreza porque a viveu e o chamou de “Jesus Cristo dos Pobres”.

“Esse quartel passa a ser um santuário dos ideais e dos valores do comandante Hugo Chávez”.

“Missão cumprida, comandante. Nada o deteve, nem a doença o deteve, e nada deterá o nosso povo. Construamos o socialismo, que é a pátria de Cristo e dos pobres. Pedimos sua luz e pedimos sua companhia. Pedimos que esteja conosco. Não tememos a morte, como você nunca a temeu. Só tememos falhar com você. Nos acompanhe e aboençoe”, completou.

O ato, que foi transmitido em cadeia de rádio e televisão, começou com o hino nacional e a presença de membros do governo e da cúpula militar, aliados do chavismo e amigos do governante. Em seguida, houve discursos do general Jacinto Pérez Arcay e do presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello.

No final da cerimônia, Maduro entregou uma bandeira da Venezuela à família de Chávez.

Ainda não há informações sobre o que será feito com o corpo do presidente. Na terça (12), Maduro disse que não seria mais possível embalsamar o corpo do mandatário porque não se cumpriram os ritos necessários para preservar os restos mortais.

A discussão é onde será enterrado Chávez. A hipótese mais cogitada é deixá-lo no Museu da Revolução, mas o governo venezuelano ainda avalia a possibilidade de criar um mausoléu em Sabaneta (a 500 km de Caracas), cidade natal do presidente.

Também é cogitada uma emenda à Constituição para que ele seja enterrado ao lado do libertador do país, Simón Bolívar, no Panteão Nacional, na capital venezuelana.

OEA

Enquanto acontecia a cerimônia em Caracas, o Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA) fazia uma reunião em homenagem a Chávez, que foi precedida pela colocação de uma oferenda floral diante da estátua de Simón Bolivar, que fica no jardim da sede do órgão interamericano.

No início da sessão, os embaixadores prestaram um minuto de silêncio a pedido de Denis Moncada, representante da Nicarágua, que transmitiu “as sentidas condolências” do Conselho Permanente “ao povo e governo de seu país e à estimada família do presidente Chávez”.

Antes, o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, o embaixador venezuelano na organização, Roy Chaderton, e Moncada, atual presidente do Conselho Permanente, levaram uma oferenda floral aos pés da estátua de Bolívar.

A oferenda consistiu em uma bandeira da Venezuela confeccionada com flores. Os embaixadores do México, Joel Hernández; Estados Unidos, Carmen Lomellín; e Bolívia, Diego Pary; entre outros, se mantiveram de pé em frente à estátua durante a colocação da oferenda.

A breve cerimônia, que não teve discursos, precedeu uma sessão extraordinária do Conselho Permanente em homenagem a Chávez, que morreu no dia 5 de março aos 58 anos após uma longa luta contra o câncer.