Entenda o escândalo de corrupção na Fifa

Folha de São Paulo

marin preso

Sete dirigentes da Fifa foram presos na Suíça na manhã desta quarta-feira (27) após serem acusados por suspeitas de corrupção envolvendo um montante de mais de US$ 150 milhões.

Horas depois, autoridades suíças anunciaram que fariam sua própria investigação sobre o processo de escolha dos países-sede das Copas de 2018 (na Rússia) e 2022 (no Qatar). A polícia suíça entrou na sede da Fifa, em Zurique, e apreendeu provas eletrônicas.

POR QUE ISSO É IMPORTANTE?

A Fifa é o órgão responsável pelo futebol mundial. Nos últimos anos, sofreu acusações de corrupção, particularmente no processo de escolha da sede do Mundial de 2022 –o vencedor foi o Qatar.

Em dezembro de 2014, a Fifa decidiu não divulgar sua própria investigação de corrupção –que, segundo a entidade, disse que o processo de escolha foi isento. O autor do relatório, o americano Michael Garcia, renunciou ao cargo.

A Copa do Mundo gera bilhões de dólares em receita. As prisões e a investigação lançam dúvida sobre a transparência e honestidade do processo de escolha nos últimos torneios.

COMO O BRASIL APARECE NA INVESTIGAÇÃO?

Três brasileiros estão implicados no esquema de corrupção, de acordo com o departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Um deles é o ex-presidente da CBF José Maria Marin –a nota do Departamento de Justiça não detalha as suspeitas contra ele.

A Justiça americana diz que José Hawilla, dono da Traffic Group, maior agência de marketing esportivo da América Latina, confessou os crimes. A Traffic é dona de direitos de transmissão, patrocínio e promoção de eventos esportivos e jogadores, além de empresas de comunicação no Brasil.

O terceiro brasileiro investigado pelo FBI é José Lazaro Margulies, proprietário das empresas Valente Corp. e Somerton Ltd., ambas ligadas a transmissões esportivas.

A nota divulgada pela Justiça norte-americana afirma ainda que investiga suposto pagamento e recebimento de suborno em um patrocínio “da CBF para uma grande empresa de roupas esportivas dos Estados Unidos”.

A Justiça americana também cita a Copa do Brasil, organizada pela CBF, como uma das competições em que poderia ter havido corrupção na negociação de direitos de transmissão e marketing.

A Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, não é citada especificamente no documento.

COMO FUNCIONARIA O ESQUEMA?

A denúncia afirma que, de 1991 até o momento, autoridades da Fifa se envolveram em vários crimes, incluindo fraude, subornos e lavagem de dinheiro. A Justiça afirma que duas gerações de dirigentes usaram suas posições para fazer parcerias com executivos de marketing esportivo que impediam outros de ter acesso a contratos e mantinham os negócios para eles por meio do pagamento de propinas.

A maior parte dos esquemas, de acordo com o departamento de Justiça, envolve recebimento de propina de executivos de marketing para comercialização de direitos de mídia e marketing de diversas competições esportivas –entre eles Copa América, Libertadores e Copa do Brasil.

QUEM SÃO OS ACUSADOS?

Foram presas figuras-chave do futebol na América Latina, América do Norte e Caribe.

Além dos brasileiros implicados, foi preso o presidente da Concacaf, Jeffrey Webb, visto com um provável sucessor do presidente da entidade, Joseph Blatter.

Uma outra figura-chave é Charles “Chuck” Blazer, ex-representante da Fifa nos Estados Unidos, que aparentemente se tornou informante do FBI. Ele confessou ser culpado e já devolveu US$ 1,9 milhão.

BLATTER FOI PRESO?

Não. O presidente da Fifa –e homem mais poderoso do futebol mundial– não está entre os citados nos indiciamentos dos Estados Unidos. Mas a Justiça americana afirma que os envolvidos estavam a serviço da Fifa –da qual ele é presidente. Até agora, ele não se pronunciou. Blatter tem grandes chances de ser reeleito à presidência da entidade na sexta-feira.

Recentemente, ele foi forçado a negar rumores de que estaria evitando viajar para os EUA porque temia ser preso.

POR QUE ELES FORAM PRESOS?

O FBI está investigando a Fifa há três anos. As investigações tiveram início por causa do processo de escolha dos países sedes das Copas de 2018 e 2022 (Rússia e Qatar, respectivamente), mas foi expandida para analisar os acordos da Fifa nos últimos 20 anos.

A acusação do Departamento de Justiça dos EUA diz que a corrupção era planejada nos EUA, mesmo quando era efetuada em outros locais. O uso de bancos americanos para transferir dinheiro é uma peça-chave da investigação.

POR QUE A SUÍÇA?

É a sede da Fifa –o registro da entidade como instituição de caridade faz com que pague taxas pequenas.

A Suíça é conhecida como um país onde empresas pouco transparentes são bem-vindas, principalmente em relação a taxas. Mas seu acordo de extradição com os EUA é claro: pessoas envolvidas em crimes podem ser enviadas aos EUA.

Aparentemente, autoridades americanas aproveitaram o que o congresso anual da Fifa fez com que todos se reunissem em um país que não colocaria obstáculos à extradição.

Os suíços também parecem estar indo atrás da Fifa, com três investigações em curso –incluindo uma anunciada horas após as prisões, sobre a escolha das cidades-sede das próximas Copas.

QUANTO DINHEIRO ESTÁ ENVOLVIDO?

Muito, supostamente.

A denúncia dos EUA alega que a corrupção envolveu US$ 150 milhões, e isso não inclui outras transações pelo mundo. Um relatório anterior sobre corrupção no Caribe, que vazou, afirma que propinas de US$ 40 mil foram pagas a autoridades em envelopes cheios de dinheiro.

Quase toda a renda da Fifa vem da Copa do Mundo, o evento esportivo mais lucrativo do mundo –superando as Olimpíadas. A Copa do ano passado custou ao Brasil cerca de US$ 4 bilhões, e a Fifa lucrou mais de US$ 2 bilhões.

O custo das duas próximas Copas deve ser superior: a Copa do Qatar deve custar mais que US$ 6 bilhões.

Só concorrer a sediar a Copa já tem um custo enorme: a federação inglesa gastou 21 milhões de libras para concorrer a Copa de 2018.

AS COPAS DA RÚSSIA E DO QATAR SERÃO FEITAS EM OUTROS PAÍSES?

Isso é improvável, mas não impossível.

A denúncia dos EUA aborda casos de corrupção no passado –a Copa de 2010, na África do Sul, por exemplo, é mencionada–, mas não futuros. As investigações da Suíça devem ser mais frutíferas em relação a isso, mas seria preciso ter provas contundentes para fazer a eleição outra vez.

Mudar a Copa da Rússia seria difícil. Poucos países têm estádios, infraestrutura e dinheiro para sediar o evento com um prazo tão curto. A melhor opção seria a Alemanha, que sediou a Copa de 2006.

O Qatar é bem mais vulnerável e foi inundado com denúncias e alegações de corrupção desde que foi escolhido como sede. Mas, mesmo depois de ter visto vários escândalos de corrupção, uma mudança inédita de um torneio de verão para inverno e um escândalo sobre mortes de trabalhadores migrantes, há chances de que eles ainda sediem a competição de futebol mais importante do mundo.

Mas, segunda o procurador americano Kelly T. Currie, a investigação não vai parar por aí.

“Após décadas, segundo a denúncia, de corrupção descarada, o futebol internacional organizado precisa de um novo começo –uma nova chance para suas instituições fazerem uma vigilância honesta e apoiarem um esporte amado pelo mundo. Deixe-me ser clara: essa denúncia não é o último capítulo da nossa investigação”, afirmou.