Morre o cantor e compositor Belchior, aos 70 anos

O Globo

RIO — O cantor e compositor Belchior morreu na noite deste sábado, em casa, em Santa Cruz (RS), aos 70 anos. A polícia acredita que a morte tenha sido natural. O governador do Ceará, Camilo Santana, decretou luto de três dias. O governo do Ceará vai providenciar o traslado do corpo para Sobral (sua cidade natal), onde será velado na manhã desta segunda-feira, no Teatro São João. Depois, o corpo será levado para Fortaleza para um velório no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. À noite, será enterrado na capital cearense.

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Um canto torto que, feito faca, corte a carne do ouvinte — era isso que buscava o dono da voz de timbre agreste, compositor de um tipo de canção que não dava para cantar sem ferir ninguém. “É para desafinar mesmo! Desafinar sempre, que esse é o desafio. Hoje em dia, já não se pode mais criar sem correr riscos. E eu quero enfrentá-los”, bradava em 1977, à revista “Pop”, Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, o Belchior. Nascido na cidade cearense de Sobral, filho de um bodegueiro, 13° entre 23 irmãos, ele tinha acabado de se tornar — um tanto paradoxalmente, diriam alguns — um artista de grande sucesso da música popular brasileira com “Alucinação” (1976), LP que vendeu 30 mil cópias em menos de três semanas de lançado.

“Não me peça que eu me faça uma canção como se deve / correta, branca, suave, muita limpa, muito leve / sons, palavras são navalhas”, cantava Belchior na canção que abriu o disco, “Apenas um rapaz latino-americano”. Era a saga do garoto “sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”, com audácia para virar, com ironia, a página do Tropicalismo de Caetano Veloso (citado na letra como “um velho compositor baiano”). Com duas canções popularizadas por Elis Regina (“Velha roupa colorida” e “Como nossos pais”) e outras igualmente fortes, como “Sujeito de sorte” e “Como o diabo gosta”), “Alucinação” foi a obra-prima do cantor, disco em que ele exprimiu a urgência do jovem brasileiro entre a violência do estado e o fim dos sonhos de liberdade representados pela revolução contracultural.

Belchior começou a carreira apresentando-se em festivais de música no Nordeste. Durante certo tempo, fez parte de uma cena de cantores e compositores, o Pessoal do Ceará, junto com nomes como Fagner e Ednardo. Em 1971, inscreveu-se no IV Festival Universitário da Canção, no Rio, e ganhou o primeiro lugar com “Hora do almoço”, interpretada por Jorge Melo e Jorge Teles. Na época, conheceu o cantor e compositor Sérgio Ricardo, que escolheu a música “Mucuripe”, feita em parceria com Fagner, para fazer parte do “Disco de bolso” do jornal “Pasquim”. Logo, Elis Regina e Roberto Carlos gravariam a canção da então desconhecida dupla.

— Estava ali naquela boemia quando Belchior me chamou num canto. Não éramos parceiros ainda. E ele me apresentou essa letra. No outro dia eu botei a música e, de noite, apresentei ali para um grupo de dez pessoas. Quando me toquei que as pessoas ficaram assustadas eu percebi que ela era especial — recorda-se Fagner. — Belchior foi um dos meus primeiros parceiros. Tivemos a oportunidade de fazer a música mais emblemática da minha carreira. Ele era enigmático. Quando saí do Ceará não demos continuidade às parcerias. Foi um amigo de geração.

COMPARAÇÕES COM BOB DYLAN

Um compositor refinado, cujas referências poéticas passavam por Fernando Pessoa, Arthur Rimbaud, T.S. Elliott e João Cabral de Melo Neto, Belchior não escapava às comparações com o americano Bob Dylan, por causa do timbre anasalado e os longos versos espremidos nas canções, às vezes de forma falada. Mas ele dizia que o buraco era mais embaixo, e tinha a ver com a infância passada em colégio de padres. “Cantei muito gregoriano, que tem esse desequilíbrio, porque usa a música como apoio para dizer os versículos enormes da Bíblia como uma melodia pequena”, disse em 1976, ao “Jornal do Brasil”.

Depois de um LP lançado em 1974, sem repercussão, e do sucesso com “Paralelas” (gravada por Erasmo Carlos e Vanusa), Belchior foi para a gravadora Philips, pelas mãos de Marco Mazzola, que produziria “Alucinação”. Emocionado, Mazzola dirigiu-se ao próprio Belchior em seu luto:

— Quando conheci você tinha certeza que sua música iria ficar imortal. Quando levei suas canções para uma reunião de produção, todos na sala escutaram e disseram não, eu insisti — lembra. — “Alucinação” foi um marco na nossa música. O que você passou na sua vida ficou traduzido em “Apenas um rapaz latino americano”, que ainda é uma realidade hoje, 40 anos depois.

Ex-presidente da Philips, André Midani também lamentou a morte do artista:

— Belchior, homem misterioso e artista de grande talento, já nos tinha deixado há muitos anos… quase séculos! Qual dor terá ele carregado dentro da alma? Que durma em paz agora, só tenho boas recordações desse homem íntegro.

O compositor da inquietude da juventude aos poucos cederia ao romantismo e à sensualidade, no LP “Todos os sentidos” (1978) e, no ano seguinte, voltaria a fazer grande sucesso com a canção “Medo de avião”. Em 1982, Belchior lançou o LP “Paraíso”, no qual gravou canções de um Arnaldo Antunes pré-Titãs (“Ma” e “Estranheleza”) e de Guilherme Arantes (“A cor do cacau”). No Facebook, Guilherme escreveu: “Belchior, que eu não canso de homenagear de todas as maneiras, foi e sempre será o melhor letrista de canções transformadoras que já existiu. Uma mente privilegiada em cultura e de talento cortante e visceral.”

O último disco de canções inéditas de Belchior foi “Baihuno”, de 1993, no qual a pesquisadora da USP Josely Teixeira Carlos (autora de teses sobre o artista) afirma que ele fez “um sumário das ideias que apresentou ao longo da carreira, de rapaz latino-americano, ‘baiano’ (uma referência a como os nordestinos são chamados em São Paulo) e ‘huno’ (o povo bárbaro da Ásia Central que migrou para a Europa nos séculos IV e V em busca de novos pastos)”.

Depois de um último disco, independente e de regravações, em 2003, Belchior foi se retirando de cena. Em 2006, dividiu o palco com o grupo Los Hermanos (que regravara a sua “A palo seco”) e, três anos depois, fez sua última aparição pública em um show de Tom Zé, em Brasília. Desde então, envolvido com dívidas, ele desapareceu, evitando contato com a imprensa ou com seus fãs.

Belchior morreu ontem, de causa desconhecida, em Santa Cruz, no Rio Grande do Sul, onde vivia desde 2000. O governo do Ceará prometeu providenciou o traslado do corpo para Sobral, onde será velado na manhã de hoje, no Teatro São João. Depois, o corpo será levado para Fortaleza para um velório no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. À noite, ele será enterrado na capital.

Texto atualizado às 20:17