Projeto de Eike Batista vira alvo de disputa no Maranhão

Empresário baiano tenta viabilizar alternativa para reservas de gás encontradas pelo bilionário no Maranhão


Plano prevê construção de gasoduto para atrair indústrias em vez de usinas termelétricas da proposta original

 

Folha de São Paulo, RICARDO BALTHAZAR
DE SÃO PAULO

Um empresário baiano cujos negócios se estendem de São Paulo ao Amazonas começou a se movimentar para abocanhar um pedaço dos lucros que o bilionário Eike Batista espera obter com as reservas de gás natural que encontrou no Maranhão.

Eike Batista, que encontrou reservas de gás no Maranhão

Em agosto, com base em estimativas muito preliminares, Eike sugeriu que os depósitos do Maranhão serão suficientes para assegurar no futuro uma produção diária de 15 milhões de metros cúbicos de gás, o equivalente a metade do que o Brasil importa atualmente da Bolívia.

O plano de Eike é usar o gás para alimentar um complexo de usinas termelétricas que ele mesmo pretende construir e vender a energia que elas gerarem para grandes indústrias em regiões mais desenvolvidas do país.

Mas o empresário Carlos Suarez, cujos interesses incluem participações nas concessionárias do serviço de distribuição de gás canalizado no Maranhão e em outros sete Estados, tem planos diferentes para o gás de Eike.

Ele quer usá-lo para turbinar o próprio negócio, construindo um gasoduto que levaria o gás de Eike para grandes empresas que já estão instaladas no Maranhão e atraindo para a região investimentos e novos clientes.

SÓ NO PAPEL

Batizada como Gasmar, a empresa que detém a concessão da distribuição de gás no Maranhão foi criada em 2002. Ela só existe no papel. Como ainda não há produção local, a Gasmar não tem gás para distribuir nem motivo para tirar da prancheta o gasoduto que quer construir.

Controlada pelo governo do Estado, a Gasmar tem como sócios uma empresa de Suarez, a Termogás, e a Gaspetro, subsidiária da Petrobras que também é sócia do empresário baiano em outras cinco companhias estaduais.

Suarez já falou do assunto com a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), e nas próximas semanas a Gasmar contratará uma consultoria para propor alternativas para a exploração das reservas de gás.

“Se a existência desses depósitos for confirmada, precisamos garantir que essa riqueza gere benefícios para o Maranhão”, disse o secretário de Indústria e Comércio do Maranhão, Maurício Macedo. “Podemos desenvolver nossa economia e até exportar gás para outros Estados.”

A exploração das reservas e a construção do complexo termelétrico planejado por Eike poderão gerar milhares de empregos. Mas as usinas empregarão pouca gente quando as obras terminarem e tendem a contribuir pouco com os cofres estaduais.

Como a cobrança do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) que incide sobre a energia elétrica é feita nos Estados consumidores, o Maranhão provavelmente ficaria com pouco além dos royalties pagos por Eike pela exploração do gás.

Se o gás for usado para tirar a Gasmar do papel, o Estado poderá ampliar sua arrecadação com as receitas do serviço de distribuição de gás e a atividade das empresas atraídas pelo novo gasoduto.

Tudo vai depender da quantidade de gás existente nas reservas que as empresas de Eike pretendem explorar, hoje uma incógnita. “Se tiver mesmo tudo isso que estão dizendo, haverá gás mais do que suficiente para todo mundo”, disse José Carlos Garcez, diretor da Termogás.

Procuradas pela Folha, as empresas de Eike que estão explorando as reservas do Maranhão, a OGX e a MPX, informaram que estudam outros projetos além do complexo termelétrico, mas não quiseram discutir detalhes.

“Meia Bolívia” no MA não está confirmada

Ninguém tem até agora uma ideia precisa do tamanho das reservas de gás encontradas pelas empresas de Eike Batista no Maranhão.

A estimativa apresentada pelo empresário em agosto foi baseada em indícios colhidos após a perfuração de um único poço e estudos preliminares feitos por geólogos em outras áreas com características físicas semelhantes.

Eike tem o direito de explorar sete blocos no interior do Maranhão, com área total de 21 mil quilômetros quadrados. Dois poços foram perfurados até agora e um terceiro será aberto em breve. Outros 12 poços estão programados para os próximos dois anos.

Somente depois que as pesquisas em andamento forem concluídas é que será possível ter noção clara da quantidade de gás existente na região e da viabilidade comercial de sua exploração.

Eike tem até 2014 para analisar as reservas, de acordo com as regras do setor, mas resolveu antecipar suas conclusões em agosto, quando declarou ter achado “meia Bolívia” no Maranhão. As ações de suas empresas dispararam com a notícia.

A MPX calcula que precisará de 8 milhões de metros cúbicos de gás por dia para alimentar o complexo termelétrico que quer construir. Segundo a Termogás, indústrias instaladas no Estado poderiam consumir mais 2 milhões de metros cúbicos se decidissem substituir outros combustíveis pelo gás.