Sonhos viraram dívidas e prejuízos para comerciantes de Bacabeira-MA

Lula, Dilma, Sarney, Lobão e Roseana anunciaram em 2010 a construção de uma refinaria em Bacabeira (MA). Foi gasto 1,5 bilhão e obra ficou só na terraplanagem.

Inácio Tales, proprietário de uma loja de construção, amarga prejuízos com a paralisação da obraFoto: Chico de Gois / Agência O Globo

O Globo

BACABEIRA (MA) — A perspectiva da instalação de uma refinaria em Bacabeira alimentou a esperança de dias melhores para muita gente na cidade. Com a propagada criação de até 25 mil empregos no período de pico da obra, e de 1,5 mil para a manutenção daquela que seria a maior refinaria do país, muita gente contraiu empréstimo para investir e aproveitar os ventos da bonança que foram anunciados por Lula, Dilma, Roseana, Sarney e Lobão em 2010. O que sobrou dos sonhos foram as dívidas e o prejuízo.

Na rodovia em frente a obra há dois hotéis — um já prontinho, à espera de clientes, e outro, maior, com seis andares levantados e inacabados, e que tem como frequentadores vacas, cavalos e cachorros.

O local virou fonte de especulação entre os bacabenses. Na cidade, há informações desencontradas sobre o estabelecimento. Há quem diga que ele pertence ao senador Lobão Filho (PMDB-MA), filho do ministro de Minas e Energia e que será candidato ao governo do Estado.

Outros garantem que o verdadeiro dono do empreendimento é Ernesto Vieira de Carvalho Neto, um suplente de deputado que é acusado de aplicar um golpe de R$ 70 milhões na Caixa Econômica Federal por meio de um bilhete falso da Megasena.

Lobão Filho se diverte com os boatos. Embora entre suas empresas haja uma de administração hoteleira, ele nega que o hotel-fantasma seja dele:

— Não é meu não. Parece que é de um grupo da Bahia e ouvi dizer que a Petrobras garantiria um mínimo de hospedagem para o empreendimento — afirmou ele ao GLOBO.

O outro hotel em frente ao que poderá ser a maior refinaria do Brasil é o Premium I e foi inaugurado em 2013, quando ainda havia funcionários trabalhando na obra. Sua proprietária, Deise Kappe, disse que nunca hospedou ninguém — só serviu refeição para os trabalhadores. O empreendimento tem oito quartos. O prédio está em boas condições, à espera de dias melhores:

— Disseram que vão retomar as obras neste ano. Vamos esperar — afirmou ela, que tem outros seis alojamentos na cidade, com capacidade para 200 pessoas, e que está sobrevivendo graças a outra obra do governo federal, a duplicação da BR-153, cujas obras começaram no ano passado também.

Em Bacabeira, um conjunto de 30 quartos espera por comprador. Uma placa na frente do estabelecimento disponibiliza dois números de celulares para um eventual empreendedor. Nunca recebeu ninguém. O proprietário, Clóvis Procópio Pereira, disse que fez outros investimentos à espera da refinaria. No total, gastou R$ 2 milhões, entre empréstimos e venda de fazendas e casas.

— Tenho 200 camas que estão estragando e um quarto cheio de ar-condicionado, que estão enferrujando. Fiz vários alojamentos e tomei prejuízo. Achei que podia confiar em quem mandava no país — lastimou.

Inácio Tales, proprietário de uma loja de material de construção, lamentou a paralisação da obra. Ele lembra que, durante a terraplanagem, suas vendas aumentaram e muitos comerciantes venderam bem mais do que o habitual. Mas o custo de vida também aumentou, assim como a especulação imobiliária. Agora, a esperança cedeu lugar à incredulidade.

— Se voltar, vai melhorar muito. Mas não sabemos se vão retomar a obra — disse ele.